5 de fev de 2015

O sentimento de impotência, ao ver cães e gatos, abandonados nas ruas diariamente sem poder ajudá-los – animais atropelados, passando fome, frio, prestes a parir suas crias, e sem ter um disque-resgate-animal que possa ser acionado, faz com que muitas pessoas no intuito de ajudá-los - acabam com dez, vinte, cinquenta e até mais de 100 animais dentro da própria casa.

Com o passar do tempo, a necessidade em proteger, alimentar e cuidar dos peludos,  vão se multiplicando problemas e mais animais, e mesmo tendo iniciado com a melhor das intenções, em alguns casos, faz com que animais resgatados das ruas acabem por ficar em um estado ainda pior.

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Muitos artigos de especialistas em comportamento humano nos falam que  isso é ‘acumulação ou coleção’ - uma doença de desordem mental relacionada à desordem obsessiva compulsiva. E que os acumuladores de animais estão perdidos em um mundo de boas intenções. Entretanto nem todos os artigos citam que nem todos que terminam com muitos animais são ‘acumuladores ou colecionadores’. Há uma grande diferença entre o que resgata animais, mas cuja situação acaba ficando fora do controle, e um acumulador ou colecionador que tem uma doença mental e está usando animais para alimentar sua compulsão.

- Sem discordar dos especialistas, o fato é que entre a proteção e a coleção estão os animais que precisam de ajuda. E o que esses animais diriam se pudessem falar…

- Será que iriam preferir ter permanecido livres e soltos pelas ruas ou iriam preferir ter um cantinho só seu?

- Será que iriam preferir caminhar dias e dias em busca de uma poça de água que pudesse aplacar sua sede ou iriam preferir uma bacia com água a ser dividida com outros animais?

- Será que iriam preferir a fome a disputar ração com seus companheiros?

O que não podemos negar é que só criticar as condições em que vivem certos animais resgatados, em nada colabora para uma melhoria em suas vidas. Enquanto que na maior parte dos países desenvolvidos, muitas governos e entidades mantém abrigos de animais, no Brasil existe uma certa concepção de que ‘abrigo não é solução’, que é difundida por vários ícones da proteção animal, por considerar que estes facilitariam o suposto ‘abandono’ de animais como cães e gatos, sem considerar que a palavra ‘abandono’ não se refere apenas ao fato  de alguém se desfazer do seu animal de estimação, mas que também a palavra ‘abandono’, se refere aos milhares de descendentes que nasceram nas ruas e que foram ‘abandonados’ pela falta de políticas públicas de bem-estar dos animais.

O argumento que abrigos não são necessários, porque cães e gatos podem se virar pelas ruas, perde sua validade quando nos deparamos com filhotes recém-nascidos ou com animais idosos, sem dentes ou mesmo com os paraplégicos, os doentes. Eles não teriam nenhum chance, como não tem os coelhos, os cavalos, os hamsters, os furões e diversas outras espécies, que não tem como sobreviver sozinhas no asfalto de nossas cidades. 

Uma das soluções é o exemplo que vem de Porto Alegre. Em 2011 criou a SEDA - Secretaria Especial dos Direitos Animais, que tem por missão estabelecer e executar políticas públicas destinadas à saúde, proteção, defesa e bem-estar animal na cidade - deveria ser seguido por todos os outros municípios brasileiros, bem como outros políticos ligados a causa animal deveriam também seguir o exemplo da Deputada Estadual Regina Becker Fortunati, que em seu perfil na rede social publicou o emocionante relato que transcrevo abaixo;

Estive, no final do dia, levando meu abraço fraterno à Maria Edi que enfrentou a difícil separação de 120 cães que mantinha sob sua tutela. Durante 20 anos, ela fez deles a sua grande, senão única, razão de viver. E, assim, submeteu-se a toda forma de privações. Na casa não restaram móveis, a não ser uma mesa onde dormia. O amor que sentia por cada um deles não lhe permitia enxergar uma possibilidade de que eles vivessem senão ao seu lado, mesmo não conseguindo lhes prover as necessidades básicas.

O sofrimento advindo da impossibilidade de promover a saúde dos animais-companheiros, passou a ser aliviado há quase 3 anos atrás, quando a Secretaria Especial dos Direitos Animais (Seda), por meio de acompanhamento periódico, passou a monitorar a situação e prestar atendimento veterinário. Todos os animais foram castrados, microchipados e estão com as vacinas e vermífugos em dia.

A senhora Maria Edi atendeu as orientações da Seda e da Promotoria do Meio Ambiente, não mais acolhendo novos animais, e concordou para que alguns fossem adotados em feiras promovidas pela Secretaria. A falta de espaço promovia disputa de território e por mais que ela desprendesse esforços em manter o local limpo, havia um constante odor de urina e fezes no local. E dona Maria Edi foi assimilando a realidade de que o amor precisa, antes de tudo, reconhecer a necessidade de que quem amamos, possa ter uma vida digna.

Ela estava nos afazeres de limpeza do pátio quando cheguei. Altiva. Digna. Humana. Comentou que ainda não estava acostumada com a ideia de que haviam ido embora, e, que gostaria de ter visto cada um deles sendo solto e usufruindo de um espaço maior para se movimentar. Que sabe que eles serão bem cuidados e que é hora de pensar em cuidar de si.

Ainda não sabe o que fará com o tempo que terá, sem eles para cuidar. Planeja viajar ao encontro de pessoas de sua família no interior, de amigos que lhe ajudaram durante estas décadas a enfrentar todas as necessidades que fragilizam qualquer pessoa. Quem sabe ir à praia alguns dias no apartamento de uma conhecida. Falou em pintar o cabelo, talvez voltar a costurar, ou, até, apenas aproveitar os anos de vida que tem pela frente. E um novo amor, talvez.

O que sensibilizou e tocou profundamente o meu coração foi o relato emocionado de que ela confeccionou fitinhas bordadas com seus nomes, habilidade de um antigo ofício, a cada um deles, para que quando fossem recebidos no lugar onde ficariam, as pessoas pudessem "saber quem são" um a um, eles, indivíduos. Estas fitas, fico imaginando, que foram confeccionadas pacientemente durante dias e até meses, simbolizam não só a identidade dos seus companheiros, mas uma construção mental e cronológica do momento que marcaria a separação definitiva e que hoje aconteceu, com angústia, sem dúvida, mas ao tempo segura desta premente tentativa de um recomeço.

Durante os procedimentos de recolhimento dos animais que foram encaminhados para serviços de albergagem credenciados pela Prefeitura Municipal, houve muito envolvimento de toda equipe. Participaram da ação os médicos-veterinários, manejadores e motoristas da Unidade de Medicina Veterinária (UMV) da Seda. Dona Maria Edi ficou satisfeita ao saber que todos estão devidamente identificados, foram fotografados, com registros individuais e seus nomes serão sempre aqueles que ela escolheu e os batizou.

O amor com que estas fitas foram feitas é a bênção da ex-tutora para a nova vida que a partir de agora viverão.

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Foto de Regina Becker Fortunati

Em quaisquer outras cidades que existirem animais abandonados, poderão surgir outras D.Edi, mas diferentemente nestas outras cidades ainda não existem SEDAS, mas isso não significa que os animais não possam ser ajudados a terem a sua terceira ou quarta chance, se mais ações efetivas e mais união houver das pessoas que se importam com os animais.

Mais do que um exemplo, o caso real da Protetora Márcia – que passou da proteção animal a acumulação de sacos de ração vazios junto a centena de animais – alguns que ela havia resgatado, vivendo com outros que foram abandonados a sua porta – e que por muito tempo foi criticada e difamada como sendo uma acumuladora de animais – sem que estas críticas surtissem em algum beneficio na vida dos mesmos, teve ajuda em seus últimos anos de vida, para voltar a ser uma protetora de animais cuidando do Abrigo dos 300 Anjos em Parelheiros/SP.

E não foi nenhum órgão municipal que ajudou a mudar a triste realidade dos animais e da Márcia, foi um grupo de amigos que anos antes também haviam ajudado 300 animais a sobreviver, depois que a protetora que os havia resgatado faleceu. Para cuidar desses animais eles fundaram a ASSOCIAÇÃO BEM-ESTAR ANIMAL AMIGOS DA CÉLIA – ABEAC, que com a colaboração de diversas outras pessoas, conseguiram comprar um terreno onde pudessem manter os animais até que conseguissem adotantes, ao mesmo tempo em que se empenhavam em conseguir arrecadar doações para alimentar e medicar os animais que nunca foram adotados.

Ao tomarem conhecimento da situação dos animais mantidos no Abrigo 300 Anjos, foram ao local para alimentar, limpar, e orientar a Márcia nos cuidados que ela deveria ter com os animais. Uma vitória conseguida graças aos colaboradores que apadrinharam os animais e aos voluntários da ABEAC que monitoravam o local.

Márcia voltou a ser uma protetora de animais  antes de falecer, e os animais do abrigo 300 Anjos hoje estão sob os cuidados da ABEAC. São mais de mil animais que dependem da sua amizade e da sua colaboração, será que poderia ajudá-los com uma doação? A ABEAC, é uma associações que mais abriga animais idosos, que precisam de medicação diária e velhinhos quase sem dentes. Todos precisando de "ração úmida" ou "carne de latinha".

Para colaborar com qualquer quantia para o sustento e medicação dos animais que são cuidados pela ABEAC - CNPJ: 06.164.870/0001-82 - Banco Itaú (341) Agência 0772 Conta Corrente 52385-8

Continue lendo:  Cães e Gatos de Protetora Falecida Precisam de Ajuda

5 de fev de 2015
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