15 de jul de 2014

Passados 10 anos da morte ou assassinato da Anta Melancia, dos Chimpanzés Tony, Felipe e Nancy, e dos Dromedário Maquito, Marisa e Mancinha, e da Orangotango Karen e os porcos-espinhos e os micos-leões-de-cara-dourada, pouco foi esclarecido e menos ainda divulgado pelas autoridades, o que teria realmente ocorrido entre janeiro e março de 2004, quando cerca de 100 mamíferos morreram no zoológico de São Paulo.

Passados dez anos de investigação, não se divulgou qualquer pista do suposto serial killer: nenhum fio de cabelo, nenhum vestígio de DNA, nenhum grampo comprometedor ou imagem de câmera de segurança permitiu apontar qualquer suspeito. O caso, que corre sob sigilo de Justiça, nunca foi arquivado. Ninguém foi preso.

Cerca de 100 Animais Mortos no Zoo de

A pequena anta Melancia, em 2004, havia sido escolhida como um dos animais-símbolos do aniversário de 450 anos da cidade, era uma das vitimas.

À falta de uma explicação melhor, a direção do zoológico atribuiu as mortes à ação de um misterioso serial killer, que, interessado em prejudicar a imagem do parque, teria posto veneno de rato na comida dos animais. A investigação mobilizou a polícia, a Justiça, a imprensa e o público durante meses.

Em 2005, mais animais morreram no Zoo, mas ao contrário do que ocorrera em 2004, a direção do zoológico de São Paulo não fez alarde sobre as mortes de animais. O fato só veio a público em 2007, quando, pressionada pelo vazamento da informação, a Fundação Zoológico enviou uma carta a respeito ao Conselho Estadual do Meio Ambiente.

O assunto é desagradável para a direção da Fundação. Reconhecer que as mortes se deveram a uma zoonose (doença animal), e não a um assassino, equivaleria a reconhecer que o zoológico esteve um dia contaminado por roedores, um vexame para a imagem internacional do zoo de São Paulo e um risco para a saúde dos visitantes do parque: há relatos na medicina de transmissão de ECM a seres humanos.

A última notícia sobre as mortes dos animais já tem cinco anos; que o suposto assassino nunca foi encontrado. Crime perfeito?

A lista obtida pela revista desmonta um detalhe fantasioso da série de mortes de animais de 2004 – a de que o serial killer seguia as letras do alfabeto (anta, bisão, chimpanzé, dromedário...) na hora de escolher suas vítimas. Não só não há nenhuma sequência alfabética nas mortes, mas o “serial killer” teria que ter verdadeira obsessão por porcos-espinhos – 36 teriam sido envenenados em apenas três meses.

Evidências esmagadoras indicam que a verdadeira causa mortis dos animais foi encefalomiocardite, uma doença causada por vírus e transmitida aos mamíferos do zoo pelos ratos que infestavam o zoológico entre 2004 e 2005.

A revista obteve documentos inéditos sobre o caso, inclusive a lista de animais mortos no zoológico naquele período, cuja autenticidade foi confirmada por ex-funcionários do zoo. Esses documentos mostram que a tese do serial killer não tem sustentação nos fatos.

A lista de animais mortos derruba a tese do “assassino em série”. Ela mostra que em 2005 houve um surto de características em tudo semelhantes ao de 2004. Ao contrário do que aconteceu em 2004, no ano seguinte a direção do zoológico conseguiu identificar claramente a causa do surto: uma zoonose (doença animal) transmitida pelas fezes de ratos, a encefalomiocardite, ou ECM. A morte por ECM tem características semelhantes àquelas dos animais vitimados em 2004.

Aparentemente, em 2004 os responsáveis pelo zoológico desconheciam a existência de ECM no Brasil, o que pode tê-los levado a não considerar essa hipótese naquela ocasião.

Uma comparação entre os dois surtos no zoológico, o de 2004 e o de 2005 (leia quadro abaixo), mostra semelhanças que desafiam as probabilidades estatísticas. As duas espécies mais atingidas são as mesmas em ambas – os porcos-espinhos e os micos-leões-de-cara-dourada. Seria necessária uma coincidência extraordinária para que o “serial killer” de 2004 privilegiasse justamente as duas espécies que, um ano depois, seriam vítimas de um surto com causas naturais. A chance matemática de isso ocorrer, considerando que há 102 espécies de mamíferos no zoológico de São Paulo, seria de aproximadamente 0,02%, ou uma em cinco mil.

Outra característica em comum entre os dois surtos é que eles aconteceram no verão, estação em que os ratos proliferam. Reportagens publicadas na imprensa em 2004 registram a infestação de ratos no zoológico naquele ano. Falam em “proliferação de ratos”, “aumento da população de roedores” e “grande número de ratos no local”. Desde 2005, quando um rígido combate aos ratos foi feito no zoológico, não houve mais surtos semelhantes. Desde então, também não se falou mais no serial killer.

SOB AMEAÇA?
Girafas no zoo de São Paulo. Pelo menos algumas das mortes foram provocadas por uma doença

A única “evidência” da ação de um serial killer é a suposta presença de MFA (monofluoracetato de sódio), um poderoso raticida, no organismo dos animais que morreram em 2004. Mas a metodologia usada nos exames que apontaram o MFA é contestada. Segundo especialistas ouvidos por ÉPOCA, o tipo de teste usado – chamado CCD, ou cromatografia de camada delgada – não permite afirmar que a morte ocorreu por envenenamento, uma vez que não indica a quantidade de MFA no corpo do animal. A técnica usada pelo Centro de Assistência Toxicológica (Ceatox) da Universidade Estadual de São Paulo (Unesp), órgão que fez os exames nos animais, pode dar um falso positivo. Para Regina Moreau, que estuda o MFA no departamento de análises clínicas e toxicológicas da faculdade de farmácia da Universidade de São Paulo, seria necessário refazer os exames. “Para ter mais precisão, eles precisa fazer também o exame de cromatografia líquida (CLAE). Esse método é muito mais refinado e pode até indicar a quantidade do MFA presente no animal", diz. "Como especialista em MFA, eu não afirmaria envenenamento por essa substância apenas analisando o CCD. Ele é apenas uma forma de fazer uma triagem. O método melhor é fazer o CLAE também."

A morte por ECM tem características semelhantes à morte por MFA – com uma importante diferença, segundo especialistas ouvidos por ÉPOCA: os animais mortos por encefalomiocardite apresentam lesões no coração; nos mortos pelo MFA, as alterações ocorrem no fígado. A grande maioria das necropsias dos animais supostamente envenenados por MFA no zoo apresentava alterações no coração, ou no cérebro. "O coração estava sempre esbranquiçado e com lesões", diz José Daniel Luzes Fedulo, ex-veterinário do Zoológico de São Paulo e responsável pelas necropsias dos animais mortos em 2004.

A questão poderia ser esclarecida voltando a examinar os animais mortos em 2004 – acredita-se que suas vísceras ainda possam estar congeladas no Ceatox – para detectar o vírus da ECM. A Fundação Zoológico não informou se tomou alguma providência nesse sentido nos últimos quatro anos. Caso a Justiça continue a protelar o assunto, as principais evidências dos “crimes” podem ser perdidas. “Só podemos ter certeza se foi zoonose se as amostras colhidas em 2004 estiverem armazenadas na temperatura adequada; do contrário, as provas podem ser perdidas para verificar a encefalomiocardite”, diz Paulo Michel Roehe, especialista nessa doença da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

O diretor do zoológico, Paulo Bressan, não retornou as ligações de ÉPOCA.

Procurado por ÉPOCA, José Luiz Catão-Dias, professor de veterinária da Universidade de São Paulo e diretor-técnico do Zoológico em 2004, insistiu na tese do “serial killer”. Em 2007, ele publicou um livro, “Tratado de Animais Selvagens”, em que admite que viroses animais podem passar “despercebidas” em zoológicos.

Em 2004, suspeitas infundadas foram lançadas sobre funcionários do zoológico. Alguns deles perderam o emprego e hoje vivem de trabalhos de menos prestígio. Alguns estão processando o zoo de São Paulo por assédio moral. Confira, na reportagem da revista desta semana (clique aqui para ler) a história da bióloga Kátia Cassaro, a única pessoa que tinha a chave da jaula de muitos dos animais que morreram em 2004.

15 de jul de 2014
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